Análise
Portugal tropeça no Congo, Kane lembra Inglaterra de quem manda
18 de junho de 2026

Sabes aquelas noites em que tu te sentas com a malta para ver Portugal a sorrir, e a coisa não corre como tinhas imaginado?
Foi assim ontem. Quase todos os favoritos confirmaram a sua palavra, mas a seleção das quinas mostrou que a viagem americana vai exigir mais do que talento individual. E na madrugada, no Estádio Azteca, ficou claro que esta Colômbia veio para incomodar muita gente.
Portugal 1-1 RD Congo
O NRG Stadium de Houston estava pintado de vermelho e verde, e havia aquela sensação de que ia ser só ir lá e ganhar.
Não foi. João Neves marcou para Portugal, com assistência de Pedro Neto, e a equipa de Roberto Martínez teve a bola e o controlo durante longos períodos. Do lado da RD Congo apareceu Yoane Wissa, servido por Arthur Masuaku, e ficou exposto aquilo que vai ser o desafio do grupo. A defensiva alta portuguesa sofre quando os congoleses arrancam em transição.
A RD Congo não veio aqui jogar de medo. Wissa, Masuaku e companhia são jogadores que vivem na Premier League e na Bundesliga há anos, e nota-se. Sempre que recuperaram a bola, partiram a correr em transições limpas, e duas vezes Diogo Costa teve de aparecer.
Os três amarelos portugueses dizem alguma coisa sobre o ritmo a que os médios congoleses obrigaram a defesa. Cristiano Ronaldo ainda procurou o lance da assinatura, mas o jogo passou-lhe ao lado pela falta de bola limpa nos últimos vinte metros.
Está tudo em aberto no grupo, mas o aviso ficou: Portugal terá de mexer o meio-campo se quiser dominar o jogo em vez de o sofrer. Há duas jornadas para acertar.
Inglaterra 4-2 Croácia
Do outro lado, em Dallas, o AT&T Stadium recebeu a versão dos ingleses que toda a gente prefere ver.
Harry Kane fez dois golos, daqueles do manual antigo, com cabeça e pé, e mostrou porque continua a ser intocável como capitão. Jude Bellingham marcou outro num momento de classe pura, e Marcus Rashford, lançado do banco, também apareceu na lista dos goleadores. A profundidade ofensiva desta Inglaterra está outra vez a falar mais alto do que a soma das suas partes.
O que se vê é uma equipa de Tuchel que abandonou o futebol cauteloso de outros tempos e passou a procurar a baliza adversária com vinte minutos a menos do que precisava antes. Pressão alta e linhas de passe sempre verticais, sem rodeios.
Pelo lado croata, Martín Baturina e Petar Musa são as caras novas do que será a próxima geração balcânica, e ambos marcaram. O problema é que a geração de ouro está quase toda na fase de despedida, e contra equipas com este ritmo a Croácia gastou-se demasiado a correr atrás da bola.
Foi um teste passado com nota alta para Inglaterra, e um alerta para os croatas de que vão precisar dos veteranos a regular o jogo se quiserem voltar às meias-finais.
Gana 1-0 Panamá
No BMO Field em Toronto, a noite foi para os Black Stars, num jogo trabalhado ao milímetro.
Caleb Marfo Yirenkyi marcou o único golo do jogo, e a leitura é a de uma equipa ganesa que veio com plano. Bloco médio-baixo, com arranques rápidos pelas alas que cada vez que apareceram fizeram doer o Panamá. É futebol moderno, executado sem floreados.
O Panamá tentou, teve a bola por períodos longos, mas raramente assustou. Faltou-lhes o jogador que decide o lance, e percebe-se porquê: este Panamá é o resultado de uma fornada nova, longe da equipa de 2018 que apaixonou o país.
Para Gana, três pontos no arranque mudam toda a matemática do grupo. Já não precisam de arriscar contra os favoritos. Podem agora gerir as próximas jornadas com a calma de quem já tem qualquer coisa no bolso.
Uzbequistão 1-3 Colômbia
A grande história da madrugada veio do Estadio Azteca, em Cidade do México.
O Uzbequistão fez ontem a sua estreia absoluta num Mundial, depois de décadas a bater na porta. Perdeu, mas o golo de Abbosbek Fayzullaev vai ficar gravado como o primeiro de sempre do seu país numa fase final, e isso ninguém lhes tira.
Em campo, foi a noite de Luis Díaz, que marcou um golo e criou outro. Daniel Muñoz, lateral direito de profissão, marcou também com um remate de fora da área, e o jovem Jhon Jader Campaz, saído do banco, esteve entre os goleadores. Mas o que ficou mais marcado foi o jogo combinado entre Díaz pela esquerda e Muñoz pela direita, com o lateral a subir tantas vezes que parecia segundo extremo.
Esta Colômbia de Néstor Lorenzo joga com a folga de quem tem opções no banco para mudar de plano sem custar nada. O Uzbequistão chegou a defender bem em alguns momentos, mas faltou-lhe ritmo competitivo para aguentar 90 minutos contra um adversário desta classe.
A leitura honesta é que a Colômbia parece candidata séria a chegar pelo menos aos quartos de final, sobretudo se Díaz mantiver esta forma. O Uzbequistão sai com dignidade e com a esperança de pontuar na próxima jornada.
Daqui a horas começa a segunda ronda dos grupos, e quem ainda anda a montar a sua própria equipa vai ter mais material para decidir o capitão. Há nomes novos a brilhar nas alas, e há a tentação de continuar fiel a quem já confiamos.
Há sempre aquela hesitação de gastar a próxima troca de transferência. Mas é nessas decisões pequenas que se separam os plantéis que vão durar até Julho dos que ficam pelo caminho.
Até amanhã.